2017, um ano bom?

Quando nos lembramos das vítimas dos incêndios que assolaram o interior do país, do sofrimento de quem ficou sem os seus haveres, das empresas e dos agricultores privados do seu ganha pão, a euforia do ano BOM acaba por amainar.

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Quem anda pelo país poderá encontrar um otimismo no ar.

Lisboa está fabulosa, cheia de gente que vem de toda a Europa saborear este nosso Sol que irradia do céu e o calor que emane desta gente que aqui vive. O Porto é cidade obrigatória, o Algarve é o que é. Mas há também o Minho ou o Alentejo e os Açores estão a abarrotar, sem falar da Madeira que é o que já se sabe.

Uma amiga nossa de 30 anos, que estuda e trabalha há uma década em Londres, pensa voltar para Portugal no próximo ano.

Estivemos em Novembro em Ponte da Barca num parque de campismo à beira do rio Lima. É uma cidade calma com cerca de 2 000 habitantes. Ruas e jardins bem arranjados, algum comércio, boas hipóteses de escolha de restaurantes. Um contraste saboroso entre uma pizzaria a abarrotar de adolescentes, e um restaurante de cozinha mais tradicional, pesada, saborosa, com idosos reformados a pontuar o café logo à entrada. Em Ponte de Lima, mesmo ali ao pé, as ruas estão igualmente bonitas, a apetecer sentar nas esplanadas e provar a doçaria local. Tudo se conjuga para garantir que Portugal está bem, respirando-se esperança no futuro. Os deficits estão controlados, ganhamos o Festival da Eurovisão com uma cantiga decente, Guterres está na ONU, Centeno no Eurogrupo e Costa é das mais influentes personalidades da Europa.

Assim 2017 parece ser um ano BOM, como já não víamos há muito tempo. A crise trouxe destas coisas: agora estamos sempre à espreita a ver se a coisa melhora, se os tempos bons já chegaram.

Não tenho andado nos transportes público, nem de táxi para tomar o pulso ao que se diz por aí. Também não tenho ido ao médico, onde nos consultórios se desfia habitual rosário de lamentações. Fui ao barbeiro, mas só se falou de redes sociais e do novo coração de Salvador Sobral.

Adoro quando alguém diz que antigamente é que era bom, sobretudo se tenho estatísticas à mão para esparramar na cara do infeliz, provando por A mais B, os tempos de miséria e injustiça que marcaram as décadas de 50 ou 60 do século passado neste Portugal. Ou as fotografias a preto e branco deste país nos anos 70. Ou as cores pirosas dos anos 80.

Ora a questão é a seguinte: se houve anos bons no passado, nós demos por isso enquanto os vivíamos? Penso que não.

E os tempos atuais são bons? Será que daqui a 10 anos alguém vai dizer: antigamente é que era bom, referindo aos dias de hoje?

Concluindo, 2017 foi um ano BOM ou isso é mera ilusão?

Ponte de Lima é linda, mas um olhar mais atento fará adivinhar, no entanto, alguma pobreza nos arredores, através dos rostos tristes de quem trabalha muito e pouco ganha. Um país estratificado mostra aqui também as suas marcas.

E ao atravessarmos a ponte de Ponte de Lima, a 2 de novembro, dia em que se homenageiam os mortos, deparamos com um funeral. Havia à volta carros de bombeiros. Em silêncio, deduzimos tratar-se de alguém, que no combate aos incêndios terá dado a vida, partindo e deixando família, sobretudo filhos pequenos, esposa, pai e mãe amargurados. Todos à volta, companheiros de combate, autoridades prestavam a última homenagem.

Foi 2017 um ano BOM?

Quando nos lembramos das vítimas dos incêndios que assolaram o interior do país, do sofrimento de quem ficou sem os seus haveres, das empresas e dos agricultores privados do seu ganha pão, a euforia do ano BOM acaba por amainar.

Recordamos que, no fundo, uma comunidade de seres humanos é este puzzle de abastança e de pobreza, de alegria e tristeza. Cada tempo é tempo de gente que encontrou forças para viver o seu dia a dia e de outros tantos, que frágeis, pelas mais diversas razões ainda não conseguiram sair de um ciclo de desânimo. E há as catástrofes, umas mais previsíveis do que outras.

Apetece apelar ao princípio dos vasos comunicantes, e desejar para 2018, não o cliché das PROSPERIDADES, mas antes agarrar na esperança e euforia que por aí anda e canaliza-la, não sei bem para onde. Talvez para prevenir e organizar a floresta, para abrir os olhos para a pobreza que ainda existe. Não para resolver todos os problemas do mundo e do país, mas para tornar os próximos tempos mais justos, mais equilibrados, seja lá o que isto for.

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